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Sobre meu trabalho - Um olhar reflexivo


Trazer uma imagem ao mundo é uma busca quase que obsessiva por caminhos permeados de incertezas, passível de constantes transformações, pleno de êxtases e angustias.  A busca pelas minhas imagens me acompanha desde há muito tempo, é um espírito investigador que não se cansa nunca.Uma entrega e envolvimento à causa da pintura, da arte. 
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azão e intuição, intelecto e emoção, energia e delicadeza, é dentro desse contexto de polaridades que acontece o meu trabalho, e é justamente daí que retiro a energia que move a minha linguagem. É nesse espaço onde me movimento, onde construo meu pensamento, minhas imagens, meus símbolos.Concretizo minha imaginação poética. As pinturas que nascem daí então, não são estáticas, como o próprio universo não o é, ao contrário tem a marca da instabilidade, livres de regras, “inacabadas” muitas vezes, (e isso me interessa).As garatujas, as linhas que percorrem e param no caminho, os grafites, registram um signo uma idéia, uma comunicação, o incompleto, a possibilidade de um fluxo de escolhas dinâmicas, um exercício de possibilidades, um espaço de intencionalidades.  

 

Monica Cella

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O espaço da pintura

 

O espaço da pintura é um universo de acontecimentos de significação, onde o artista elabora seus conteúdos num embate permanente com os elementos físicos dos quais é composta a pintura: tela, tintas, pincéis, e toda a espécie de material usado por ele. Fazer arte é antes de mais nada formar uma matéria, configurar uma gama de possibilidades latentes.É explorar o desconhecido numa aventura insólita e concreta.Para que isto aconteça, no entanto, o artista decide por escolhas a todo o momento, escolhas que no instante em que são feitas, excluem outras tantas possibilidades e caminhos.Através destas escolhas ele se coloca e se imprime na obra.Desta forma, vai demarcando aspectos do seu ser. Artista e obra são neste momento um só fluxo, ininterrupto de energia e criação. Quando o artista cria ele está diante de um intrincado jogo de relações que através de suas escolhas vão tomando corpo e fazendo surgir e sugerir uma rede de significações, e vai nascendo então o corpo poético do trabalho em si.Ele fala através de metáforas.
Porém, depois de “pronto” o trabalho, este é muito mais do que a soma de todas as etapas que o compõe, ou seja, a partir do momento em que a obra sai para o mundo, ela passa a ser um espaço muito mais amplo do que antes, pois agora ela é também a soma de todos os olhares que pousarem sobre ela, expandindo-se constantemente, e provocando sucessivos ressignificados.Exigem agora não apenas um olhar contemplativo,mas um olhar que pensa.Artista, obra e espectador são aspectos diferentes de uma mesma questão. No exato momento em que se encontram, aí nasce uma nova maneira de ser, sentir e ver a vida, cria-se uma expansão do pensamento que conduz a outras formas de ver e perceber as coisas.

Monica Cella

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Sobre arte, gravura e o fazer do artista

 


 

A arte para mim é, sobretudo um modo muito particular de ver e perceber o mundo, dentro de mim e a minha volta.Posso não pintar ou desenhar todos os dias, mas penso em arte boa parte do meu tempo.Através dela aprendi a entrar em contato com a parte mais sutil de todas as coisas, é como um canal que me liga a um mundo não imediatamente visível.As obras são coisas concretas, constituem-se de matéria: papéis,tintas,o algodão da tela,a madeira do chassi,pincéis,etc.Porém revelam imagens de um mundo que só é possível através das mãos do artista e de sua imaginação.Um mundo poético, onírico e pleno de possibilidades. O espectador diante da obra se liga a este mundo, é transportado até ele pela via do artista.Tem, porém um papel ativo neste processo, pois estando ali com tudo aquilo que lhe pertence, que é parte de seu próprio ser e de seu próprio mundo, torna-se também um participante ativo no processo de significação da obra.E é justamente aí que reside a grande beleza da arte, nesta teia de significações possíveis contidas em todas as obras criadas pelos artistas e perpassadas pelos espectadores.Artista e espectador se encontram, se fundem neste momento.
Criar para mim significa dispor e usar de múltiplos meios a minha volta, usando a pesquisa como ferramenta de descoberta de infinitas possibilidades, técnicas e poéticas.Pintura, escultura, desenho, fotografia, gravura, etc. Cada técnica revela-se em sua natureza de modo muito particular e característico.Oferecendo às mãos e a imaginação do artista, o que cada uma pode dar, à sua maneira própria.
Venho trabalhando com arte desde há muito tempo, e cada vez mais o campo se expande e meus conhecimentos tornam-se pequenos diante de tanto, a saber, e a conhecer.O contato com a gravura aconteceu durante esta jornada de pesquisas e descobertas, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, e na Oficina de gravura, ambos ministrados pela professora e artista plástica Juliane Fuganti.Significou para mim a abertura de um outro universo de possibilidades e afetividades.Permite a execução de trabalhos, que outras técnicas, até então, não haviam revelado.Cortar, perfurar, sulcar, pressionar, corroer, gastar, imprimir, gravar...toques firmes ou sutis.É a natureza do material que se confronta com as mãos do artista, na tentativa de revelar toda a potência contida na matéria trabalhada.  


Monica Cella

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Não basta ser engajado para ser artista

Para ser artista não basta ser engajado e politicamente atuante.Não é necessário levantar bandeiras e estandartes para ser artista.Antes, é ter a alma simples e o coração no centro do ser.Ser artista é uma questão muito mais complexa do que apenas exercer o ofício de pintar, desenhar, expor, aparecer na mídia  e posar como tal.Antes de tudo a alma do artista é um caldeirão de possibilidades poéticas a pensar e a sentir o mundo no eterno fluxo da criação.É um questionamento constante, uma inquietação permanente na alma do artista.Num constante beber de todas as fontes.Num profundo expandir de conhecimentos transformados e elaborados em poesia, pela via das mãos do artista na obra que ele cria.É ter sede de saber e de conhecimentos, de técnicas e estéticas.Mas isso só não basta.Ser verdadeiramente artista exige primeiramente um compromisso com aquilo que se produz e uma responsabilidade também.Exige uma integridade com aquilo que se produz, pois quando vão para o mundo as obras dos artistas devem se sustentar por si só, e nem todo o engajamento possível será capaz de fazer isto pela obra.Ser coerente com sua posição escolhida e com seu discurso, não somente atirar para todos os lados onde apontam as melhores oportunidades.Ser artista verdadeiramente não é ser oportunista, mas bastante diferente disto, criar oportunidades, lançar propostas, fazer perguntas.Ser artista é antes de tudo uma maneira de ver e sentir a vida em toda sua potencialidade e plenitude.É enxergar um mundo não imediatamente visível, através das coisas que o cercam.
Num mundo cada vez mais abarrotado de imagens e uma velocidade insaciável por novidades, muito tem se falado de artes, artistas e processos.Muitos tem posado de artistas e até trabalhado como tal.Desenvolvem carreiras “bem sucedidas” até.As galerias de artes estão cheias de “obras de arte” que  nada acrescentam ao mundo, repetições sucessivas de fórmulas encontradas há muito tempo, jargões, clichês.
Hoje todos tem pressa.Pressa em terminar logo o trabalho proposto a fim de colocá-lo imediatamente no mercado, pressa em fazer o mais rápido possível a próxima exposição, pressa em vender sua mais recente produção, pressa em produzir já para o próximo salão, pressa em fazer fama, ser um sucesso, uma celebridade da artes.Correr atrás da fama, fazer marketing pessoal, expor-se mais do que o próprio trabalho.O verdadeiro artista sabe que é longe de todo desse barulho que acontecem os bons resultados.Que é através da pesquisa e da dedicação e principalmente através do tempo, que se obtem bons e sólidos resultados.O verdadeiro artista sabe que cada trabalho tem um tempo próprio para acontecer, que não adianta forçar o término de uma obra.É quase como uma gestação, a obra tem que amadurecer para então sair ao mundo.E que tudo isso demanda tempo, e que esse tempo é extremamente necessário para o trabalho.

Domínio técnico e auto promoção são suficientes para forjar um artista?

Monica Cella

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Sobre o meu processo

O meu trabalho acontece através do desenvolvimento de um processo onde coloco a máxima subjetividade, através do uso dos elementos pictóricos (cor, linha, superfície, espaço...) como elementos de construção da minha expressividade, das minhas idéias. O processo acontece intuitivamente, portanto gestos e ações de caráter espontâneo tem absoluta importância no meu processo.E é justamente daí, do gesto livre, do traço inacabado, que retiro a energia que move a minha linguagem. A espontaneidade, gestualidade e um certo acaso que procuro, durante o processo, não excluem absolutamente, nem invalidam o uso fundamentado dos elementos de construção citados acima. Muito pelo contrário, a idéia é que a imagem final encontrada seja sustentada pelo uso adequado de todas as possibilidades técnicas e teóricas de construção. O que acontece é que durante o processo, este conhecimento teórico chega pela via da intuição, através de uma síntese. Enquanto estou pintando, ouço esta escuta intuitiva, misto de razão e sensibilidade, que norteia meu procedimento, gestos, ações e escolhas. Daí posso afirmar que, o resultado das minhas ações e interferências sobre o plano, são da ordem da emoção mas também do intelecto.
P.S. Entendo intuição, como a elaboração do somatório de todo o conhecimento adquirido e vivido, que, embora a razão não reconheça a fonte objetivamente, provoca um insight, um discernimento, um saber que não pode ser explicado com base na argumentação lógica.  

Monica Cella

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O trabalho da mão sonhadora

Na poética da gravura, o artista anima imagens oníricas que vão surgindo do trabalho da mão confrontando-se com a matéria.Esta por sua vez, impõe resistência à mão, ao corpo que opera, revelando-se em sua natureza, seja ela o metal, a pedra, a madeira, enfim.Deste embate e confronto de forças contrárias, vem ao mundo seres de poesia, concebidos pela imaginação dinâmica do artista. Criar é animar a matéria inerte, fazendo-a despertar dentro de si mesma, em toda a sua plenitude e potência.
A gravura particularmente é uma técnica que se revela aos poucos.Somente aqueles que realmente persistem em seus caminhos, descobrem a beleza e a poesia em seus meandros.

Exige do artista/gravador, dedicação, disciplina e rigor (muito próprios desta técnica) a fim de obterem resultados coerentes com tal empenho. É um processo de reflexão e de ação, ao mesmo tempo.Onde o artista opera com as mãos e os instrumentos sobre o suporte escolhido de certa forma espontânea e reflexiva, dando espaço ao acaso, mas também ao controle sobre os resultados desejados. A gravura é uma técnica exigente.

Monica Cella

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Sobre a legitimidade do meu fazer  

A busca pelas minhas imagens me acompanha desde muito tempo. Busco algo que verdadeiramente me pertença. Desde o começo, se é que posso definir um momento preciso como começo, desejei construir algo que tivesse legitimidade e coerência, comigo mesma, com a relação que tenho com o mundo, com as pessoas e com as coisas que me cercam. Para tanto, tentei identificar possibilidades com as quais eu pudesse iniciar esta jornada.Primeiramente busquei em outros artistas e em suas imagens, algo que me tocasse, me mobilizasse, para a partir daí encontrar um conceito do que era arte para mim. Num segundo momento, olhei diretamente para dentro de mim mesma, tentando tatear e identificar as minhas próprias possibilidades e minha maneira peculiar de ver e sentir o mundo. Algo que fosse forte o suficiente, e que tivesse uma energia, que justificasse a criação de novas imagens, as minhas imagens.Percebi, que algo bastante intenso acontecia em mim mesma. Uma força de polaridades diferentes, movimentos contraditórios, que geram uma tensão com a qual eu gostaria de trabalhar. Estas polaridades me interessam, pois acredito que justamente daí é que retiro a energia criativa que move minha linguagem.É com esta energia que crio minhas imagens e construo minhas idéias.


Monica Cella