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TEXTOS |
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Sobre
meu trabalho - Um olhar reflexivo |
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Trazer
uma imagem ao mundo é uma busca quase que obsessiva por caminhos permeados de incertezas, passível de constantes transformações, pleno
de êxtases e angustias. A
busca pelas minhas imagens me acompanha desde há muito tempo, é um espírito
investigador que não se cansa nunca.Uma entrega e envolvimento à causa
da pintura, da arte. Monica Cella _______________________________________________________________ |
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O espaço da pintura
O
espaço da pintura é um universo de acontecimentos de significação,
onde o artista elabora seus conteúdos num embate permanente com os
elementos físicos dos quais é composta a pintura: tela, tintas, pincéis,
e toda a espécie de material usado por ele. Fazer arte é antes de mais
nada formar uma matéria, configurar uma gama de possibilidades latentes.É
explorar o desconhecido numa aventura insólita e concreta.Para que isto
aconteça, no entanto, o artista decide por escolhas a todo o momento,
escolhas que no instante em que são feitas, excluem outras tantas
possibilidades e caminhos.Através destas escolhas ele se coloca e se
imprime na obra.Desta forma, vai demarcando aspectos do seu ser. Artista e
obra são neste momento um só fluxo, ininterrupto de energia e criação.
Quando o artista cria ele está diante de um intrincado jogo de relações
que através de suas escolhas vão tomando corpo e fazendo surgir e
sugerir uma rede de significações, e vai nascendo então o corpo poético
do trabalho em si.Ele fala através de metáforas. Monica Cella _______________________________________________________________
Sobre arte, gravura e o fazer do artista
A
arte para mim é, sobretudo um modo muito particular de ver e perceber o
mundo, dentro de mim e a minha volta.Posso não pintar ou desenhar todos
os dias, mas penso em arte boa parte do meu tempo.Através dela aprendi a
entrar em contato com a parte mais sutil de todas as coisas, é como um
canal que me liga a um mundo não imediatamente visível.As obras são
coisas concretas, constituem-se de matéria: papéis,tintas,o algodão da
tela,a madeira do chassi,pincéis,etc.Porém revelam imagens de um mundo
que só é possível através das mãos do artista e de sua imaginação.Um
mundo poético, onírico e pleno de possibilidades. O espectador diante da
obra se liga a este mundo, é transportado até ele pela via do
artista.Tem, porém um papel ativo neste processo, pois estando ali com
tudo aquilo que lhe pertence, que é parte de seu próprio ser e de seu próprio
mundo, torna-se também um participante ativo no processo de significação
da obra.E é justamente aí que reside a grande beleza da arte, nesta teia
de significações possíveis contidas em todas as obras criadas pelos
artistas e perpassadas pelos espectadores.Artista e espectador se
encontram, se fundem neste momento. Monica Cella _______________________________________________________________
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Não basta ser engajado para ser artista |
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Para
ser artista não basta ser engajado e politicamente atuante.Não é necessário
levantar bandeiras e estandartes para ser artista.Antes, é ter a alma
simples e o coração no centro do ser.Ser artista é uma questão muito
mais complexa do que apenas exercer o ofício de pintar, desenhar, expor,
aparecer na mídia e posar
como tal.Antes de tudo a alma do artista é um caldeirão de
possibilidades poéticas a pensar e a sentir o mundo no eterno fluxo da
criação.É um questionamento constante, uma inquietação permanente na
alma do artista.Num constante beber de todas as fontes.Num profundo
expandir de conhecimentos transformados e elaborados em poesia, pela via
das mãos do artista na obra que ele cria.É ter sede de saber e de
conhecimentos, de técnicas e estéticas.Mas isso só não basta.Ser
verdadeiramente artista exige primeiramente um compromisso com aquilo que
se produz e uma responsabilidade também.Exige uma integridade com aquilo
que se produz, pois quando vão para o mundo as obras dos artistas devem
se sustentar por si só, e nem todo o engajamento possível será capaz de
fazer isto pela obra.Ser coerente com sua posição escolhida e com seu
discurso, não somente atirar para todos os lados onde apontam as melhores
oportunidades.Ser artista verdadeiramente não é ser oportunista, mas
bastante diferente disto, criar oportunidades, lançar propostas, fazer
perguntas.Ser artista é antes de tudo uma maneira de ver e sentir a vida
em toda sua potencialidade e plenitude.É enxergar um mundo não
imediatamente visível, através das coisas que o cercam. Domínio
técnico e auto promoção são suficientes para forjar um artista? Monica Cella _______________________________________________________________ |
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Sobre o meu processo |
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O
meu trabalho acontece através do desenvolvimento de um processo onde
coloco a máxima subjetividade, através do uso dos elementos pictóricos
(cor, linha, superfície, espaço...) como elementos de construção da
minha expressividade, das minhas idéias. O processo acontece
intuitivamente, portanto gestos e ações de caráter espontâneo tem
absoluta importância no meu processo.E é justamente daí, do gesto
livre, do traço inacabado, que retiro a energia que move a minha
linguagem. A espontaneidade, gestualidade e um certo acaso que procuro,
durante o processo, não excluem absolutamente, nem invalidam o uso
fundamentado dos elementos de construção citados acima. Muito pelo contrário,
a idéia é que a imagem final encontrada seja sustentada pelo uso
adequado de todas as possibilidades técnicas e teóricas de construção.
O que acontece é que durante o processo, este conhecimento teórico chega
pela via da intuição, através de uma síntese. Enquanto estou pintando,
ouço esta escuta intuitiva, misto de razão e sensibilidade, que norteia
meu procedimento, gestos, ações e escolhas. Daí posso afirmar que, o
resultado das minhas ações e interferências sobre o plano, são da
ordem da emoção mas também do intelecto. Monica Cella _______________________________________________________________ |
O trabalho da mão sonhadora |
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Na
poética da gravura, o artista anima imagens oníricas que vão surgindo
do trabalho da mão confrontando-se com a matéria.Esta por sua vez, impõe
resistência à mão, ao corpo que opera, revelando-se em sua natureza,
seja ela o metal, a pedra, a madeira, enfim.Deste embate e confronto de
forças contrárias, vem ao mundo seres de poesia, concebidos pela imaginação
dinâmica do artista. Criar é animar a matéria inerte, fazendo-a
despertar dentro de si mesma, em toda a sua plenitude e potência. Monica Cella _______________________________________________________________ |
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Sobre a
legitimidade do meu fazer |
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A
busca pelas minhas imagens me acompanha desde muito tempo. Busco algo que
verdadeiramente me pertença. Desde o começo, se é que posso definir um
momento preciso como começo, desejei construir algo que tivesse
legitimidade e coerência, comigo mesma, com a relação que tenho com o
mundo, com as pessoas e com as coisas que me cercam. Para tanto, tentei
identificar possibilidades com as quais eu pudesse iniciar esta
jornada.Primeiramente busquei em outros artistas e em suas imagens, algo
que me tocasse, me mobilizasse, para a partir daí encontrar um conceito
do que era arte para mim. Num segundo momento, olhei diretamente para
dentro de mim mesma, tentando tatear e identificar as minhas próprias
possibilidades e minha maneira peculiar de ver e sentir o mundo. Algo que
fosse forte o suficiente, e que tivesse uma energia, que justificasse a
criação de novas imagens, as minhas imagens.Percebi, que algo bastante
intenso acontecia em mim mesma. Uma força de polaridades diferentes,
movimentos contraditórios, que geram uma tensão com a qual eu gostaria
de trabalhar. Estas polaridades me interessam, pois acredito que
justamente daí é que retiro a energia criativa que move minha linguagem.É
com esta energia que crio minhas imagens e construo minhas idéias. Monica Cella |